sábado, abril 30, 2005

costumes

À saída do Walvis, passámos a rir por um grupo de quase-trintas que lançaram umas palavras em Inglês americanizado falso. Talvez tenham tido uma certa dificuldade em entender que eu e o Vicente falávamos espanhol entre nós.
Iamos sem rumo definido, entre procurar a localização exacta do Rock Bar ou tentar entrar ainda num Zebra moribundo, e ao meu amigo dá-lhe uma incontrolável vontade de mudar a água às azeitonas. Como faltassem 10 minutos para chegarmos a qualquer um dos dois dicidiu-se voltar ao Walvis. Enquanto ele usufruia das instalações sanitárias eu fiquei de fora, não muito longe do grupo que agora via serem claramente uns belgas pacholas.
Quando nos preparamos para retomar a rua, somos interpelados pelo mais alto. A conversa foi assim:

Alto: - Hey, do you speak english?
Nós: - Sure
Alto: - Do you know where to find babydoll?
Nós: - No, I have no idea...
Alto: - Ah... So you guys know where to find some drugs?
Nós: - Mmm, no, not really...
Alto: - But you are from Brussels
Vicente: - No, he is! (Vicente points in my direction)
Eu: - Yes I am.
Alto: - Ok, then... Thanks anyway.
Nós: - Bye.

Do rescaldo da conversa várias questões se levantaram.
  • Poderiam ser passadores a meter conversa para ver se andavamos numa de comprar?
  • Poderiam ser paisanas a ver se nós eramos passadores? (porque aqui os passadores são pessoas normais...)
  • Seriam só um grupo de arruaceiros de direita numa de testar se éramos material para arranjar problemas?
  • Quem raio era Babydoll? Um passador conhecido da área?
  • O que raio era Babydoll? Uma discoteca? Uma droga nova?
Pelo aspecto deles para a hora da noite, pelas as latas de coca-cola que tinham na mão, ganhou a teoria de serem polícias. Chegamos a esta decisão em conjunto e fizemos dela a nossa verdade. Ainda atríbuimos pontos extra pelo profissionalismo no inquérito metódico, pelo bafo sóbrio, pela discrição dos seus amigos que eram todos semi-musculados e que certamente tornavam aquele fim de rua num lugar mais seguro.

quinta-feira, abril 28, 2005

To the whiskeys

The King's crossing was the main attraction 
Dominoes falling in a chain reaction
The scraping subject ruled by fear told me
Whiskey works better than beer
...
This is the place where time reverses
And dead men talk to all the pretty nurses
Instruments shine on a silver tray
Don't let me get carried away
Don't let me get carried away
Don't let me be carried away

King's Crossing by Elliot Smith

e...?


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Da pitoresca arte urbana semeada aqui e ali, esta deixou-me sem resposta. Bem entendido que se trata de uma pergunta. "Interpelação à sociedade móvel mas sedentária que a forçará a uma paragem meditativa sobre o seu futuro colectivo" dirá o artista. Eu só acho que é uma pergunta.
E...?
A resposta tinha-a o meu pai:
E... se a minha avó tivesse rodas, eu era um camião!
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segunda-feira, abril 25, 2005

BIAC - onde começa e acaba


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No Brussels International Airport Company todas as minhas viagens começam e acabam. Deposita-se a mala para daí a uns dias a puxar outra vez. As passadeiras rolantes, as cinturas de transporte, os amplos espaços, os riscos dos rodados das maletas de executivo, o ar fino perfumado de café com leite e as janelas para a pista fascinam-me para lá da normal observação das coisas. Sinto-me a viver numa ficção ciêntifica feita de hélices cujas pás giram gigantes em sinal do venturoso porvir da humanidade. Tento não dar muita atenção para poder passar despercebido, recupero o queixo caído e deixo-me maravilhar em silêncio.
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Tubagem inteligente


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Deixei Bucareste para trás e fui de coche presidêncial para Sinaia. A condução não obedece às mesmas regras restritivas que nos países vizinhos. Vale tudo, ultrapassagens tanto pela direita como pela esquerda, condução sobre o duplo contínuo, ultrapassagem da fila de trânsito para ficar na frente da pole-position ao esverdear do semáforo, enfim... tanto maiores as atrocidades à Lei quanto maior a cilindrada do carro. A viatura presidêncial até mudanças automáticas tinha permitindo assim a aceleração quasi imediata ascendendo a warp drive em menos de 5 segundos. A esta velocidade ficamos colados no assento e as nossas cores esvaem-se para trás da nuca.
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Durante parte do caminho somos acompanhados de tubagem industrial que paira a um escasso palmo da erva verde fluorescente. A tantos metros ela dá um saltinho para deixar passar pessoas e maquinaria por baixo sem que seja preciso contornar-se os incontáveis kilómetros. Tubagem inteligente.
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Bucareste austera


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Os dias em Bucareste passei-os numa recém inaugurada residência de estudantes. A cidade é dominada pela arquitectura austera de Ceausescu que de tão imponente e totalitária consegue cair no registo de escusada e sem préstimo. Os Romenos odeiam os edíficios, pelos dinheiros públicos gastos, pelo sacríficio da população para os criar e manter, pelo que simbolizam e, alguns, só por os acharem feios.
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Da residência via este edifício que tal como muitos estava abandonado e aguardava obras de melhoramento e adaptação a outras funções. A mesma lavagem de cara que o meu prédio sofrera. Todo o interior havia sido reformado com materiais de baixa qualidade e o exterior estava em processo de levar uma segunda demão. O aquecimento central estava ligado no máximo e todas as janelas fechadas por lá ainda não habitar ninguém. Fomos os primeiros. Tivemos o alojamento gratuito, favor prestado pelo Reitor, a bem da boa imagem aos olhos da UE.
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Havia qualquer coisa nas paredes e nos azulejos do chão que parecia querer esconder o passado. O calor suava-me os poros e passear lá dentro em tronco nú, onde não havia vivalma, só com a luz difusa de um céu cinzento a perpassar as janelas era como um exercício à auto-confiança. Era deixar as ideias colar-se às paredes e levantar-nos do chão.
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Transilvânia, ai, ai, que medo...


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Este é o pátio do castelo do Drácula. Segundo conta o guia este afinal não é o castelo do Drácula, já depois de termos pago a entrada. Ao que parece o grupo de iluminados norte-americanos que resolveu vir em busca do dito castelo, guiados pelas páginas de Bram Stoker, cometeram o erro de não perceber que era um livro de ficção. Apesar de algumas descrições estarem próximas da verdade, não consta que o autor tenha alguma vez vindo à roménia, além de se dar a liberdade de fazer uso da criatividade.
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À falta de um castelo na localização descrita resolveram ampliar o raio de busca. Para os académicos este que encontraram reunia todas as condições para ser elegível já que era uma aproximação fiel do que o livro descreveria. E assim se tornou este inocente e depurado palacete no alto da montanha transilvânia num ícone da cultura gótica e num excelente ex-libris de atracção turística.
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Castelo do Drácula


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Deixamos os vendilhões de geringonças e artesanato às 3 pancadas para nos inclinarmos à subida que leva ao castelo do Drácula. O Drácula como vampiro nunca existiu mas a personagem histórica Vlad Tepes tem uma história pitoresca. Mais uma vez o povo é que paga pelos líderes carismáticos.
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Não consta que ele tenha vivido neste castelo tão pouco. A importância histórica desta edificação é o facto de ela proteger uma passagem na montanha. Esta passagem era a forma mais fácil de atravessar a montanha que surge por detrás da planície florestal. Daí o nome da zona - porta da transilvânia.
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Amália na Juke


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Numa trattoria romena o menos que se poderia esperar era uma juke-box muito menos com a nossa compatriota escarrapachada no centro. Aparentemente o espírito latino que corre nas veias dos romenos também os torna próximos do fatum.
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A obnóxia cantora de hotel romeno


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Quando se pensava que ela não poderia piorar no anacronismo para a vestimenta ela surpreendia-nos uma vez mais. Sempre com uma tendência para o que o início dos anos 90 trouxeram de mau. A impressionante romena de toutiço levantado em repuxo meneava ao som da música o cabelo que lhe pendia em caracois pretos de fino calibre.
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O repertório era variado e incidente maioritariamente no canconetismo americano consensual dos anos 90. Ela batia com os dedos no microfone tal como as nossas cantoras de tournée provinciana e sabia dar à anquinha generosa (eufemismo, para evitar a obscenidade) como bom sinal de mulher multípara. Muito cheia de si, rebolava os lábios, aproximava e afastava o microfone da boca, como cantora de piano-bar, experiente no seu metier. Uma desgraça que ela gostava de sempre coroar no fim com um seco e falsamente fatigado "tanque iu". O seu parceiro, que a acompanhava ao orgão e caixa de ritmos, por vezes avançava uns momentos do coro e ajudava cantando por inteiro uma baladita mais rasgada. Tudo isto até seria suportável se o volume sonoro não estivesse ao nível de competir com o do motor de um avião a jacto.
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Mas o lamentável tinha de acontecer. Ao ver que a audiência batia palmas ainda que rude e sarcasticamente, resolveu cantar pela primeira vez a musica que tinha composto com o seu marido (o mono do órgão) para o aniversário de casamento. Decidiram mostrá-lo pela primeira vez em público ali naquele momento. A coisa não correu bem, com muitas desistências de uns e sorrisos de outros. Parece que há pessoas fadadas ao insucesso.
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domingo, abril 17, 2005

Excerto de um dia mau

Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói

Vê bem
Não houve à luz do dia
Quem não tenha provado
O travo amargo da melancolia

E então rapaz,
Então porquê a raiva se a culpa não é minha
Serão efeitos secundários da poesia

É só mais um dia mau, mau, mau
É só mais um dia mau, mau, mau
É só mais um dia mau
É só mais um dia mau
É só mais um dia mau

Ornatos Violeta

segunda-feira, abril 11, 2005

Conclave na Roménia



Assim se fazem os preparativos das damas romenas, que têm um traquejo enorme e longínqua reputação na combinação de cores e padrões, para uma noite de folia e vinho tinto.
Desde os tempos de Vlad Tepes, famoso por ser rapaz de bom porte e fino trato, sempre atencioso com os seus convidados, que estes tipos sabem como dar uma festa.

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Toma conta de mim um ânsia de contactar com as gentes e manhas de um povo recenseado a 60% culpa grande reinado da população nómada Roma. Já me estou a ver rodeado de crianças de semáforo com ranho seco sob o lábio, a fingir que choram, a pedir uns níqueis para matar a fome. A árvore donde elas nascem julga-se estar situada lá, ainda que ninguém a tenha visto até hoje. Também gostava de ter um tête-a-tête com o Rei Cigano, diz-se por aí à boca cheia que tem andado a encher os cofres do... er... banco cigano (?) com as tributações que cobra por toda a Europa. É então indubitavel o seu talento para o negócio pelo que reside nele uma mais-valia para o estado português.

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Claro que também não poderia deixar de ir à moderna "trans-sylvania".



sábado, abril 09, 2005

Palmazeitona and the johnsons


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Em 1864, Caleb Johnson fundou a companhia de sabão B. J. Johnson Soap Co., em Milwaukee. Em 1898 esta companhia introduziu um sabão feito de óleos de palma e azeitona. Foi um sucesso tão grande que a companhia considerou mudar o nome para o do produto. Em 1917 nasce a Palmolive.
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Andar na rua ao fim de semana traz estes felizes acasos de encontrar uma casa de antiguidades de produtos de cozinha e casa-de-banho com raridades da indústria saponificadora expostas ao sol.

Super Abril


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O Café Walvis tornou-se um dos meus pousos favoritos. Cervejas, musica boa - e não sou fácil de contentar -, pessoas que pensam, pessoas que pensam que não pensam, pessoas que não pensam que pensam.
De minha casa ao café, tomando a linha recta que é sempre a mais curta mas nem sempre a mais rápida, vamos parando a ver as montras das lojas. Sem intenção de comprar nada vamo-nos deixando surpreender com o queixo caindo em maravilha.
Os cubos de rubik forrados a lantejoulas rearranjam-se nas cores da camisola da liberalização.
Aqui não houve Abril mas a segunda guerra ainda é um lenho mal agrafado.Posted by Hello

terça-feira, abril 05, 2005

Ursinha carinhosa (care bear)


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No Grão-Ducado, onde apanho internet só quando a janela do quarto está aberta, viro costas à parede adornada com uma obra de arte de Eric Dietman. O artista nascido na Suécia em 1937 vive desde 1959 em Paris e expõe continuamente na Galeria Claudine naquela cidade desde 1979.
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São suas as palavras:
"There are words which are not sufficient, so I help them by making "objects""
"Adhesive plaster is simply the poor man's bronze"
"All I do is bypass poetry. What is the difference between a written page and a painting or a sculpture?"
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Para andar de metro eu vejo diferença e prefiro andar com um bom Europa-América edição de bolso.
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Título do quadro, andei a bisbilhotar mas não achei. A julgar pelos outros nomes em que faz jogos de palavras e livre associação de ideias um atrevido "explorador polar" parece-lhe assentar que nem uma luva.
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O que tem isto a ver com o Luxemburgo? Nada. Mas dada a pequenez do lugarejo achei que isto seria de mais interesse do que qualquer outra coisa que vi aqui.
Menção honrosa para a banda de clarinetes do 2º batalhão militar do Luxemburgo. 2º e último.

domingo, abril 03, 2005

Flypaper


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Finalmente e em grande estilo estamo-nos a ver livres da nuvem de mosquitos que se tinha adensado e disseminado por todo o apartamento a partir de um vasinho moderno. A solução: Um papel colante para insectos que se assume como tal. Não pretende disfarçar as intenções tendo umas moscas tamanho-familiar a decora-lo.
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Imaginem-se um tipo que vê um cartaz de uma senhora de peito generoso e rubicundo e nos extra 5 segundos que pasma a olhar e em que, incontroladamente, solta um fio de baba pelo canto da boca, não vê a parede resinosa e estatela-se nela. É com esta perversidade que se apanham mosquitos incautos.
Para os mosquitos homossexuais continuamos a usar o método de esmagamento por palmas.Posted by Hello

Virgin Distress by Fila Lisboa feat. Licita

Tentativa de check-in 1 - Fila 15 minutos.
Excesso de bagagem, 75€ por 15 quilos a mais que já incluíam a bagagem de mão. Nem pó. Toca a voltar ao carro a deixar as conservas e farináceos de produção nacional que foram ideia de última hora para atafulhar a mala que se fosse mais vazia poderia romper na viagem. Nada de perscindir dos enchidos. Há coisas que um português não pode dispensar da sua dieta por mais de 2 meses sob pena de perder a rubra face e a destreza no manguito.
Tentativa de Check-in 2 - Fila 20 minutos.
Quanto mais o tempo se aproxima da hora de embarque maior a quantidade de pessoas que assomam ao balcão mostrando aquilo em que somos bons: Resolver probelmas individuais como se o mundo fosse acabar daqui a meia hora.
Desta vez são só 5 quilos a mais. Tem de se ir pagar 15€ ao guichet da Servisair que fica "ali ao fundo à esquerda" quando apontada a direcção geral do centro da termiteira.
Servisair - Fila 7 minutos.
Depois de preenchido o papel e de se ter chamado por intercomunicador o balcão de check-in para saber o número da reserva que recebi por e-mail e nunca imprimi, não há Multibanco. Há que evitar outra reincidência nesta fila contando os trocos.
Tentativa de Check-in 3 - Fila 5 minutos.
Sucesso. Até passei desavergonhadamente à frente, como me tinham indicado, mas deixando que a senhora que lá estava terminasse o assunto. Há um mínimo de cordialidade pelo próximo passageiro que devemos ter... nunca se sabe se ele não estará à nossa frente para os lavabos num momento de aperto.
Entrada para zona de embarque (1) - Fila 3 minutos.
Já com alguma manha se sabe qual a entrada escondida mas é sempre impossível evitar o habitual turista americano que chega com cartão de embarque nunca antes visto, carregado de um olhar de indignação pelo funcionamento empírico das coisas. Mostro o meu assim de longe e recebo um polegar para cima do oficial enquanto ele mergulha fundo no imbróglio do casal Nike.
Detector de metais - Fila 8 minutos.
A manha manda sempre estar atento ao fundo dos bastidores e observar bem se naquele preciso momento vai ser aberta uma outra passagem pela arcadinha pi-pi-pi. O divertículo alternativo é aberto e eu, manhosamente, um dos primeiros a passar.
Entrada para zona de embarque propriamente dita (2) - Fila 3 minutos.
O pouco tempo em fila explica-se pela espera sentado perto do portão de embarque até que a corja de ansiosos se dissipe.
Entrada para autocarro que leva ao avião - Fila 5 minutos.
Mau timing. Apanhei o momento entre autocarros. Detesto filas paradas sobretudo com famílias numerosas com forte incidência de crianças hiper-activas e/ou excitadas. Nunca percebi as vozes contra as sopinhas de cavalo cansado. A sabedoria dos antigos devia ser menos menosprezada. (Pode dizer-se maisprezada?)
Já dentro do Avião, 10 minutos depois de não entrar ninguém, recebemos um comunicado do piloto que preferiu esperar que se resolvesse um problema com as bagagens do nosso voo. Sonhei que teriam sido os cães dos Costumes a farejar as minhas linguiças...

Special thanks to Licita who has accompanied me through this perilous and mindtwisting experience.
"Mãe, há só uma!"
 
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