segunda-feira, janeiro 08, 2007

todos a borto!



Nada pior do que discutir alhos atirando-se uns bugalhos para o ar.


Hoje imaginei-me sendo uma grávida numa maca às portas de um bloco operatório para fazer um aborto. Depois de consideradas todas as opções seria a última hipótese de mudança que me restava. Ainda assim tinha um pesar latente na cabeça oscilante entre o (a) isto é para outra fase da minha vida, agora não poderei dar a felicidade que intento, só vou estragar a minha e a vida do que aí vem; e o (b) eu devia era ter esta criança porque Deus Nosso Senhor providenciará e enquanto eu tiver bracinhos para trabalhar há-de haver comida na mesa para todos.

Vêm as senhoras do barco do arco-íris (vindo da holanda tem de ser sempre fruta-cores) e dizem-me ali de perna escancarada: "Vai miúda, tu és senhora da tua vida e tens todo o direito de decidir o que é melhor. Azares acontecem e não vale a pena trazeres para aqui alguém que não vai ser querido e amado como tu queres. Ter filhos é boa onda mas só quando forem planeados."

E aí vou eu. Abram-se as portas do bloco, empurrem-me a maca para dentro!


Param-me a maca umas senhoras muito descontraídas que também aparecem em revistas. Levantam a sobrancelha e dizem: "Onde é que vais miúda?! Ja pensaste bem no que vais fazer? Vais matar o que pode ser o próximo Enstein. Ok, mesmo que seja um Castelo-Branco não lhe irias negar o teu amor. Toda a gente consegue educar uma criança surpresa. Olha a tua volta. Se não tivessemos andado para a frente com tantos indesejados ainda estávamos à espera de D. Sebastião."... "e depois, às 10 semanas já há um coração a bater!!"


Eu mesmo estando de 7 semanas achei tal o impacto que gritei para fecharem as portas do bloco e meterem a maca em marcha à ré.


Agora fiquei com 2 grupos de senhoras a ajudarem-me a formular a moral para abortar ou não. Cada um empurrando a maca num sentido oposto e eu ali de perna aberta.


Já no banho o sonho não me saía da cabeça. Até que com uma borracha psíquica esborratei tudo. Que me interessa isto? Só se for do ponto de vista de discussão filosófico-académica de tertúlia de fim-de-semana.

O referendo que vem aí é sobre se a mulher da maca que já saiu do bloco com aborto feito deve ou não ser acusada de um crime. Estes são os alhos, o resto são bugalhos...

5 comentários:

insustentavel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Extravaganza disse...

Meu caro, nem de propósito... Vim aqui para ver o que dizias sobre o tema...

Excelente post, como sempre!

bjs

fiodeazeite disse...

muy bien! já agora "thanks" take care

maria disse...

Vim cá parar de "kimboio"!
Ainda bem que vim até esta estação!!
Pois é, anda tudo misturado! e, justificações de um lado e do outro, como ali ficam caricaturadas, são-nas aos molhos e dizem pouco ou nada precisamente sobre o que é: depois de feito, "ela" tem de ser acusada? Nisto de gravidezes e a decisão ser sempre (e só, como quase todos dizem) da mulher, arrepia-me a fúria! Nunca percebi porque se tira daí o outro lado da questão, sim, que ninguém engravida sozinha... é bem verdade quando dizem que, em última análise, se é no corpo dela que o ovo cresce... mas, de todo modo, o potencial pai teria sempre de ser chamado e ouvido, ou não?
Cá por mim, há uma frase de alguém que aprendi desde sempre a estimar, que diz assim:
Todo o aborto é um mal mas o aborto clandestino é uma catástrofe!
Portanto, como julgo que "ela" e "ele" não devem ser acusados, sem dúvida, no referendo eu voto Sim!
Também porque, claramente, o Não soa-me a hipocrisia do pior...

Kraak/Peixinho disse...

Hey Coco :) Este teu post é formidável! Parabéns! Excelente!

O problema é basicamente este: a contra-informação que os partidários do "NÃO" fazem e que só leva à mediania deste país pensar no que naum devem.

Subscrevo as palavras da Maria (Maria, já te disse que curto imenso os teus comentários, naum? :D), só que acho que o aborto clandestino naum irá acabar. Poderá ser atenuado, mas continuará sempre a existir. Sempre vai continuar a existir a questão da "vergonha", "preconceito social" etc.

Eu também voto pelo "SIM", naum por cheirar a hipocrisia se fosse o caso, mas sim por convicção.

Como é que dizia o outro em 1986? "P'rá Frente Portugal"?

Hugzz clandestinos

 
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