terça-feira, janeiro 04, 2005

sobre o chico-espertismo

Perguntaram-me se realmente sentia falta do chico-espertismo nacional como disse há 2 posts atrás.
A resposta não carece de grandes elaborações: Sim!
Agora é que vou efabular um pouco. Não é elaborar, isso é o que se responde numa pergunta de exame e que está quase sempre incompleto.
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Ser-se chico-esperto é uma qualidade portuguesa sui-géneris. Não sendo uma qualidade da qual nos gabemos amíude, faz-nos falta à sobrevivência europeia. Não temos a disciplina nórdica, não temos o rigor da Europa central, não somos naturalmente laboriosos como os congéneres de Leste mas temos (e achamo-nos no direito de ter) tudo o que eles têm.
Esta nossa qualidade é mesmo reconhecida pelos italianos que denominaram "fare a la portoghese" o acto de passar à frente numa fila.
Somos um povo de atalhos e disso não há que ter vergonha. Somos um povo que se socorre de intrumentos diversos e intuitivos, cuja mestria adquirimos com o tempo. Falo naturalmente da manigância, da malandrice, do arranjar-se, da cunha, da sacanice, do tacho e quejandos. Sempre todos costas com costas para proteger o nosso pequeno feudo.
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O contrário de chico-esperto é pacóvio. Nota-se particularmente por sofrer em silêncio e muitas vezes ser vítima do primeiro até mesmo sem o saber. O melhor chico-esperto não se faz notar ainda que goste que a sua arte seja apreciada por alguns poucos. É vulgar ser visto a confraternizar com outros da mesma espécie, partilhando façanhas.
A melhor maneira de despertar o chico-espertismo num pacato português é colocá-lo no estrangeiro. Com a séria desculpa de não falarem a língua e de virem de um país reconhecidamente desfavorecido em tecnologias parece que tudo lhes é permitido.
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Dir-se-ia que seríamos os ciganões da Europa, mas tal não é verdade porque esses estão na Roménia como toda a gente sabe.
Na realidade, o chico-espertismo parece funcionar apenas numa escala pequena e quotidiana. Nunca passou pela cabeça de ninguém usar semelhante estratégia para chegar à frente em alguma coisa de valor na Europa, nem sequer para ludibriar as altas instâncias europeias do défice nacional. Neste aspecto fomos suplantados pela Itália e pela Grécia, que o fizeram antes de nós, mas mal porque foram descobertas.
Isso sim é vergonha, roubar e não ter mãos para acartar e no fim ser-se descoberto. De resto parece que tudo vale para o chico-esperto, uma coroa de louros na alma portuguesa.
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(Se tivesse efabulado no meu período universitário talvez tivesse tido melhores notas. Mas nãããão, eu tinha de fazer tudo correcto e ter a nota merecida em vez de me armar em chico-esperto. A minha média faz, pois juz ao nome. É média.)

3 comentários:

.toquio disse...

será que "de pacóvio e chico-esperto todos temos um pouco"?

espero que tenhas aprendido a lição durante os tempos de faculdade.. pacóvio nunca mais!

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gaja disse...

Obrigada por este seu post tão didático. Fiquei bastante mais esclarecida quanto à sua posição em relação ao chico-espertismo. E continue a efabular, que tem talento prá coisa. Se pensarmos bem, é já meio caminho andado para chegar a chico-esperto! A lábia, esse requisito essencial, não lhe falta!!

Ah, e estou consigo! tivesse eu acordado antes para o poder do chico-espertismo em geral e da efabulação em particular, e a minha carreira académica tinha seguido outro rumo... ai tinha tinha!

pedro disse...

eu gosto de te "ouvir" as efabulações.

e só aqui entre nós, eu até acho que és um bocado chico-esperto! (vês? vês? quem é amigo?)

e essa conversa toda do período universitário fez-me lembrar que tenho exame daqui a menos de duas horas... vou-me embora, entrar pela parte da frente do autocarro e sair pela de trás, para evitar confusões!

 
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